Glênio Rissio é o Griô Digital, contador de histórias da cultura de Pelotas

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Glênio Rissio é um Griô Digital da cultura de Pelotas (RS). Segundo a tradição da cultura negra, griô (às vezes também escrito “griot”) é aquele que mantêm viva a memória e a cultura, contando e passando adiante as histórias de um povo ou localidade. Trabalhador da construção civil, ele sempre esteve envolvido em projetos e atividades culturais.

Ele participou da fundação da rádio comunitária RádioCom, também de Pelotas, onde atua até hoje colaborando em programas. Quem circula pelas atividades culturais da região já viu Glênio registrando os momentos com sua câmera. Muito habilidoso, ele próprio construiu um equipamento, a partir de canos de PVC, conhecido como “Steadicam”, que permite maior estabilidade nas gravações.

Porém, Glênio encontrava dificuldade na hora de divulgar as gravações que fazia. Estimulado e auxiliado por amigos, ele acabou criando o canal Griô Digital, onde está disponibilizando, aos poucos, o conteúdo de seus registros. O canal é no Youtube e pode ser acessado clicando aqui.

“Ainda estou bem verde na construção do canal. Por mais que esteja meu nome ali, o canal é uma construção coletiva, tem várias pessoas envolvidas que estão me ajudando”, relata Glênio. Ele afirma que a ideia de começar a filmar os eventos surgiu a partir de 2015, quando estudava no Curso Técnico em Edificações do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-riograndense (IFSul) de Pelotas.

“Em determinado momento do curso, foi pedido que a gente registrasse nossas atividades. Aí me obriguei a comprar uma câmera, e dei sorte com ela. Eu tenho desde 2015 e ela segue comigo até hoje”, afirma.

Depois que terminou a escola técnica, Glênio se questionou sobre o que poderia fazer com a câmera. Já que sempre teve um envolvimento com as atividades culturais da cidade, ele começou a frequentar os festivais e apresentações musicais com sua câmera, fazendo registros, de dia e de noite.

“O pessoal chegava pra mim e perguntava onde que ia estar o vídeo [para poder ver], e eu respondia que não ia pra lugar nenhum, que não tinha nenhum canal. O tempo foi passando e eu fui filmando, fui registrando e comprando HD, tenho uns oito hoje”, conta.

O HD a que Glênio se refere é uma memória externa, usada para salvar e armazenar arquivos digitais. O tempo foi passando e os pedidos aumentando, até que Glênio obteve ajuda de um companheiro, Diego Portella, que criou o canal e sugeriu o nome.

Após criar o canal, Glênio aprendeu a fazer edição de vídeos. Sem nenhuma noção, ele afirma que teve bastante dificuldade quando começou. Relata também que aprendeu algumas técnicas quando cursava Antropologia, na Universidade Federal de Pelotas, e pôde fazer uma cadeira de Antropologia e Audiovisual.

“Tive ajuda do Hamilton, que é um técnico ali da Universidade. Tudo isso foi me alimentando pra construir o canal. O Diego fez a arte, em cima da foto do próprio Hamilton. Daí eu fui fazendo, consegui vencer essa dificuldade que eu tinha de fazer os vídeos. Era uma dificuldade terrível [risos]. Eu sou trabalhador braçal, e de repente tenho que fazer mais essa parte intelectual da coisa toda”, relata Glênio.

Muita gente tem ajudado Glênio a melhorar alguns aspectos das filmagens, e também das postagens. Ele conta que costuma chamar as pessoas para verem os vídeos antes de serem postados, pegando algumas dicas dessas pessoas sobre as filmagens.

Ele está em um processo de revisar os HDs que possui para revisitar as gravações antes de serem lançadas. A diversidade de registros demonstra a constante presença de Glênio em diversos eventos, noturnos e diurnos, da cena cultural pelotense. Já lançou apresentações de MPB, de rap, de reggae e avisa que em breve vai postar uma de choro.

Como exemplo, este vídeo da apresentação da cantora moçambicana Sizaquel Matchombe, que apresentou a canção “Nicerralile”, durante o Festival MozBrasil, realizado em Pelotas em 2018:

“A gente tá lançando estilos diferentes. Eu falo num coletivo pois, por mais que no final ali esteja meu nome, eu nunca vou esquecer das pessoas que estão me ajudando nesse processo. Na verdade, a vida é essa, a gente tá sempre com pessoas na volta que nos ajudam, essa coisa de individualismo, de conseguir sozinho, eu não acredito nisso, pra mim isso não existe, tudo são redes que tu monta e acaba fazendo parte.

Glênio avisa que muita coisa vem por aís, já que ainda tem muito material a ser revisto que esta guardado nos seus HDs. Para ele, o projeto do Griôt Digital provavelmente nunca estará pronto, sempre haverão coisas novas que irão surgir e renovar as possibilidades

Redação Pedro Neves Dias / Brasil de Fato