Um resgate à humanidade em Pelotas

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Projeto Kanimambo é ação social e resistência na doce terra do charque

 

Por Marcelo Nascente

Pelotas, como todos sabemos, é uma cidade que se orgulha de ter a economia baseada no comércio. Se há algo que sabemos fazer bem, é vender. Vendemos turismo de verão, embora as águas do Laranjal estejam há anos, cronicamente impróprias para banho. Vendemos austeridade fiscal, enquanto gastamos milhões em obras que, além de desnecessárias, ficam inacabadas.

Vendemos doces. Somos a terra do doce! Mas já fomos a terra do charque… vendíamos charque como nenhuma outra cidade. E ainda nos orgulhamos deste passado não tão distante, onde a mão de obra escrava possibilitava que nossa nobre sociedade desfrutasse da cultura europeia. Ah, sim! Também já fomos pólo cultural…

Um ranço de cultura, que trazemos até hoje, em sobrenomes clássicos e casas com tronco no porão. Somos um povo receptivo, também. No ano passado, nossa tradicional festa do doce teve mais de 270 mil visitantes, de acordo com o site oficial do evento. Clientes. E nós recebemos bem nossos clientes.

Mas não os seres humanos.

Já há alguns anos, imigrantes senegaleses vêm a Pelotas, na tentativa de subsistência, não só para si, mas para os familiares, que ainda vivem lá, oprimidos por um sistema que lhes priva das condições mínimas de dignidade. Chegam aqui e tentam vender suas mercadorias no mercado informal, as ruas cidade. Mas não podem, porque isto não é permitido pela lei.

Então eles tentam a legalização, fazem CNPj, pagam alvarás de ponto de contato e impostos ao município. Mas, mesmo assim, não podem. São perseguidos pela Guarda Municipal, têm suas mercadorias apreendidas (de forma que não a possam recuperá-las), sofrem retaliações, lesões corporais e com prisões arbitrárias.

Pensando nisso, a jornalista Ediane Oliveira e o mestrando em filosofia e produtor cultural Vinícius Moraes, elaboraram, conjuntamente com um grupo de parceiros, o Projeto Kanimambo, submetido em 2016 ao programa municipal Procultura, aprovado e posto em prática neste ano, como uma tentativa de suprir uma demanda que o poder público não foi capaz, por não ter políticas específicas para lidar com o assunto e tratá-lo de forma truculenta e desumana.

Para tentar conciliar geração de trabalho e renda com a valorização da identidade étnica africana, através do vestuário, o projeto busca, com a abertura de um novo mercado, produção de vestuário autêntico, com tecidos tradicionais e design moderno, que possa ser comercializado em qualquer lugar da cidade, resgatando a ancestralidade cultural e o respeito, além de valorizar o ser humano de maneira igualitária.

Em uma parceria com o Núcleo de Economia Solidária da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), foi criado um espaço de produção, com maquinário disponível para a criação e execução das peças. Também são desenvolvidas oficinas, às segundas, quartas e sextas, das 9h às 12h, debates, rodas de conversas e cursos de formação, ministradas por dona Carmen, costureira-chefe do projeto.

Expectativa

Os coordenadores do projeto avaliam que uma maior exposição acontecerá ainda este mês, com a execução de mostras, participação em eventos e um desfile dos materiais produzidos, que ocorrerá em data a ser definida.

“Com o início das produções em andamento, pensamos em um desfile para apresentar uma primeira mostra das produções do ateliê de vestuário africano”, projeta Vinícius Moraes, que salienta ser possível ao público fazer encomendas pela funpage do projeto: https://www.facebook.com/projetomozambique/

Na avaliação da jornalista e também coordenadora do projeto, Ediane Oliveira, “é gratificante buscar realizar um projeto que vem na via de gerar trabalho e renda para os imigrantes senegaleses em Pelotas, fortalecendo a identidade cultural africana em uma cidade que possui em sua história o legado africano, e que muitas vezes, acaba sendo invisibilizado”.

Sem dúvida um projeto de suma importância para a inclusão social e a liberdade invidual em um momento em que a prefeitura de Pelotas envia à Câmara de Vereadores da cidade um “Código de Convivência” arbitrário, buscando diminuir os índices de violência na cidade.

O estranho, nisso tudo, é que parte da violência é gerada pelos próprios mecanismos de repressão da prefeitura, que humilha cidadãos, os exclui e depois aprova a liberação de verba para um projeto que possa os beneficiar.

Pelotas ainda tem cheiro de charque.