Mobilização popular foi fundamental para a vitória de Lula

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” Este é o artigo 1º da Constituição Federal, que foi cumprido à risca neste domingo, 25 de outubro, com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nas ruas e nas redes sociais, o povo provou que é quem de fato manda no país, o povo é o guardião da democracia e da soberania. E isso não é pouca coisa. É histórico, como é histórica a virada no segundo turno, algo que nunca havia acontecido no Brasil.

Ao ver a ameaça iminente de uma tomada de poder pela extrema direita, representada pelo Bolsonarismo, o Brasil foi à luta. Idosos com mais de 70 anos, que já não precisam mais votar, foram às urnas; jovens defenderam nas ruas e nas redes o direito de estudar, o acesso à universidade, à cultura e ao lazer; a classe artística se mobilizou e os trabalhadores foram incansáveis na defesa da Constituição e dos direitos trabalhistas conquistados durante os governos de Lula.

Comitês surgiram em diversos setores. Inclusive os bancários criaram o seu. E, de forma orgânica, um exército que uniu esquerda, centro e direita se mobilizou nas redes sociais sob o comando de um deputado que recebeu a alcunha de general: André Janones.

Deixar que Flávio Bolsonaro vencesse significava perder direitos, entregar nossas terras raras, nossas empresas públicas, nossa soberania nacional ao capital estrangeiro, especialmente aos Estados Unidos. Representava perder conquistas importantes como o fim da escala 6X1, o SUS, o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Prouni, o Pé de Meia e tantos outros projetos.

Embora Flávio repetisse em sua campanha que nada disso acabaria, atitudes do seu passado e falas de bastidores apontavam na direção contrária. O povo não esqueceu que, quando deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio votou contra a ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses e que foi o único a votar contra o Programa Renda Melhor, ao qual apelidou de “Bolsa Farelo”.

Quando senador, votou contra a ampliação do BPC, que garante um salário mínimo mensal a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência. Além disso, defendeu o PL 3.723/2019, apresentado originalmente pelo Poder Executivo durante o governo Jair Bolsonaro, que propunha a retirada de exigências de identificação e rastreabilidade de munições, o que não foi bem visto pela população. Ele também defendia que os trabalhadores ganhassem por hora trabalhada e pudessem negociar diretamente com o patrão, o que, como nossas campanhas salariais já provaram, não funciona. Só a união da classe trabalhadora garante os nossos direitos.

Mobilização nas ruas e nas redes

Alguns fatores estão associados à vitória de Lula por uma diferença de cerca de 4 milhões de votos. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para aproximadamente 19,21% no segundo. Cerca de 3 milhões de pessoas a mais compareceram às urnas. Reportagens atribuíram parte dessa mobilização à intensificação da campanha e à atuação de militantes.

A campanha de Lula ampliou a participação de lideranças regionais, intensificou os atos públicos e passou a dar maior destaque às propostas para o mandato seguinte. Nos debates de TV, a checagem de fatos mostrou que havia mais incongruências na fala do adversário.

O canal de WhatsApp conhecido como “Exército de Lula”, associado ao deputado André Janones, chegou a 10,8 milhões de seguidores. A estrutura foi usada para estimular o compartilhamento de conteúdos, a participação em transmissões ao vivo e a presença em atos. A cobertura jornalística identificou essa mobilização como um elemento importante da reta final, embora não seja possível medir isoladamente quantos votos ela produziu.

A partir da experiência digital do segundo turno, Lula afirmou em seu discurso da vitória que vai mudar a forma de governar o país e que isso inclui mais participação popular e o combate às big techs. “Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais. Nós vamos ter que regulá-las”, afirmou o presidente reeleito. “Não podemos ter empresas monstruosas e grandes ganhando bilhões, não pagando nenhum imposto neste país, tentando direcionar o resultado eleitoral deste país.”

Repercussão mundial

Aos olhos do mundo, a vitória de Lula representa uma ruptura da América Latina com o avanço da extrema direita. O jornal estadunidense The Washington Post publicou: “Lula vence a reeleição no Brasil, interrompendo a guinada da América Latina à direita”. O jornal espanhol El País destacou a virada eleitoral, a diferença de votos e o papel de Lula como contraponto político ao presidente norte-americano Donald Trump. Na capa da edição impressa desta segunda-feira (26), o jornal diz que Lula “consolida-se como um pilar da resistência contra Trump na região”.

O Associated Press enfatizou que a vitória de Lula contrariou a tendência regional favorável a candidatos de direita alinhados a Donald Trump e pode manter o Brasil resistente à pressão dos Estados Unidos. E o China Daily afirmou que Lula “contraria uma guinada à direita observada em eleições recentes na América do Sul”.

Os jornais também noticiaram que Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota e que poderá questioná-la na justiça. Entretanto, a alegação de que a votação prorrogada por ordem do Supremo Tribunal Federal em duas horas favoreceu a candidatura de Lula não se sustenta, já que a campanha de Flávio Bolsonaro também havia feito o mesmo pedido à justiça eleitoral por motivos diferentes.

Acusações contra Flávio

Talvez a contestação do resultado não seja exatamente de alguém que não sabe perder, mas de alguém que tem medo, pois sabe que perdeu seu foro privilegiado e terá muito o que explicar.

Flávio Bolsonaro foi relacionado às milícias do Rio de Janeiro e tem inúmeras acusações para enfrentar. Ele terá que responder, por exemplo, pelas suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas às negociações com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Flávio terá que explicar relações entre pessoas e empresas ligadas ao seu entorno que são investigados no escândalo de descontos indevidos em benefícios do INSS. Também foram divulgadas informações sobre emendas parlamentares indicadas por Flávio que terminaram em entidades ou empresas questionadas por órgãos de controle ou investigadas por suspeitas de irregularidades.

Desafios do próximo governo

Eleger Lula e frear a expansão da extrema-direita no país e na América Latina não serão suficientes para que os próximos quatro anos de governo sejam tranquilos e prósperos.

Em seu quarto mandato, Luiz Inácio Lula da Silva terá muitos desafios pela frente. Com um Congresso de oposição fortemente alinhado à direita, Lula terá que trabalhar para construir maioria e aprovar os projetos apresentados em sua plataforma de campanha. O PL, por exemplo, terá 121 deputados federais e 28 senadores. O PT terá 70 deputados e nove senadores. Lula precisará negociar com partidos de centro e outras legendas para aprovar projetos, o Orçamento e medidas que dependam de mudanças constitucionais.

Terá, ainda, os desafios de conciliar investimentos e políticas sociais com receitas suficientes para sustentar as despesas públicas; estimular investimentos, infraestrutura, inovação, indústria e produtividade, além de melhorar a qualificação profissional.

O governo precisará lidar com fatores internos e externos que influenciam os preços, respeitando a autonomia do Banco Central e fazendo com que a evolução da renda seja acompanhada por melhora do poder de compra. Além disso, precisará combater o endividamento das famílias e conduzir a transição do sistema tributário, regulamentar os novos tributos e administrar seus efeitos sobre empresas, consumidores, estados e municípios.

Será preciso, ainda, enfrentar as mudanças climáticas, ampliar a prevenção de incêndios, a adaptação a enchentes e secas e a proteção das populações vulneráveis a eventos climáticos extremos. A transição energética e o financiamento climático serão partes importantes dessa agenda.

O presidente terá de responder à expansão do trabalho por plataformas digitais, às mudanças provocadas pela inteligência artificial, à informalidade e à necessidade de qualificação profissional.

Na questão da segurança pública, que Lula mencionou em seu discurso, o combate às organizações criminosas, ao tráfico de armas e drogas, à lavagem de dinheiro e à infiltração de grupos criminosos na economia exigirá coordenação entre União, estados e municípios.

Os desafios também incluem manter e aprimorar programas como Bolsa Família e BPC, reduzir filas no SUS, melhorar a aprendizagem escolar e ampliar o acesso à moradia. O envelhecimento da população também aumenta a pressão sobre a Previdência e os serviços de saúde.

Contudo, isso são planos para o Brasil que inicia em janeiro de 2027. Por ora, a democracia está preservada e os direitos dos trabalhadores estão garantidos. Que venham mais quatro anos de lutas e vitórias para o povo brasileiro.

Fonte: SindBancários de Porto Alegre

Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil

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