Em busca da sobrevivência: pelotenses se expõem ao risco de contágio por Covid-19

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A Pandemia vem reforçando uma realidade social que tem tomado conta não só de Pelotas, mas de todo o país, antes mesmo da chegada do vírus no Brasil. O aumento da informalidade e do número de pessoas em situação de rua é um dos principais efeitos da agenda de mercado, que teve início com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, e se intensificou com a adoção de uma política econômica ultraliberal, capitaneada pelo Governo Bolsonaro.

Foto: Eduardo Menezes – Seeb Pelotas

Alinhamento ideológico

Ideologicamente alinhados à ideia de diminuição do papel do Estado, os governos Eduardo e Paula, do PSDB, reproduzem, em âmbitos estadual e municipal, o modelo de gestão que tem sido desastroso para o país, gerando perda de direitos, precarização do trabalho e desemprego. É importante lembrar que a Lei da Terceirização, por exemplo, foi aprovada ainda em 2017, abrindo o caminho para a Reforma Trabalhista, a Lei do Teto de Gastos, a Reforma da Previdência e, agora, também, a Reforma Administrativa – projetos que tiveram amplo apoio do PSDB, no Congresso.

A alta taxa de desemprego, em todo o Brasil, tem levado milhares de pessoas a optar pela informalidade, mas, muitas delas, acabam tendo um destino ainda pior: a miséria. Só para se ter uma ideia, o Brasil encerrou o mês de outubro com 13,5 milhões de desempregados. Este número equivale à, aproximadamente, 3,4 milhões a mais de pessoas fora do mercado de trabalho do que em maio deste ano. Além disso, de 2012 para cá, a população em situação de rua cresceu 140%.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), esse percentual equivale a quase 222 mil brasileiros, apenas até março deste ano. De acordo com a pesquisa intitulada “Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil”, que foi desenvolvida com base em dados do censo anual do Sistema Único de Assistência Social (Censo Suas), de 2019, 81% das pessoas que estão em situação de rua vivem em cidades com mais de 100 mil habitantes, como é o caso de Pelotas. Diante desse quadro, os moradores de rua estão concentrados, sobretudo, nas regiões Sul (15,1%), Nordeste (17,2%) e Sudeste (56,2%).

Aglomeração e busca por sobrevivência

Basta dar uma volta pelo centro de Pelotas para se deparar com o número crescente de pessoas exercendo trabalhos informais e, até mesmo, sendo obrigadas a apelar para a mendicância. Para a agente comunitária de saúde de Pelotas, Luana Farias, a questão do trabalho é central para o entendimento do impacto da má gestão da crise sanitária, no município, já que a classe empresarial sempre tem prioridade na interlocução com o poder Executivo.

Ao criticar a postura do governo Paula, na Pandemia, a agente comunitária alerta para o fato de que os trabalhadores formais e informais estão sendo expostos ao contágio da Covid-19, dia após dia, para tentar levar o mínimo de dignidade para as suas famílias, seja nos espaços em que trabalham, seja no uso do transporte público, que tem enfrentado superlotação. Enquanto isso, segundo Luana, a Prefeitura se nega a aceitar a Universidade como principal interlocutor para o controle da Pandemia, se pautando, prioritariamente, pelo interesse do grande empresariado local.

Fotos: Marcelo Nascente

Falta de alternativa

“Nesta semana, ficamos sabendo que tem uma loja de eletrodomésticos, no centro da cidade, com seis funcionários contaminados”, lembra a agente comunitária, ao questionar quantas pessoas passaram por esta loja sem saber que esses trabalhadores estavam infectados. “Eles têm que trabalhar para levar o sustento para as suas famílias. É o mesmo caso de quem teve que panfletar, durante a campanha eleitoral, gerando mais aglomeração no centro da cidade, durante esse período”, destaca.

Ao avaliar a situação enfrentada pelo município, Luana ressalta que a realidade dos trabalhadores do comércio e dos que atuam na informalidade não parece causar nenhum tipo de sensibilização para que a Prefeitura tome medidas capazes de auxiliar essas famílias.

Conforme explica a agente comunitária, quem atua na informalidade, principalmente, acaba aceitando qualquer serviço, mesmo que temporário, para garantir o mínimo, mostrando que o problema da desigualdade social, durante a crise sanitária, necessita, ainda mais, de uma intervenção por parte do Poder Público em todos os âmbitos. “O auxílio emergencial foi de R$ 600,00 para R$ 300,00 reais. Nenhuma família consegue sobreviver com esse dinheiro”, salienta a agente comunitária, questionando qual alternativa essas pessoas teriam, senão, a de se exporem ao contágio do vírus.

Reportagem: Eduardo Menezes – Seeb Pelotas

Fotos 1 e 2 (destaque): Eduardo Menezes – Seeb Pelotas

Fotos 3 e 4: Marcelo Nascente