Pesquisa estima que RS tem 12 casos de coronavírus para cada notificação oficial

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Em transmissão realizada pelas redes sociais na manhã de ontem (29), o governo do Estado apresentou os dados da nova fase da pesquisa de prevalência do novo coronavírus no Rio Grande do Sul, que é coordenada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A pesquisa é um dos elementos que está ajudando o governo a moldar a política de distanciamento social controlado, que será adotada no Rio Grande do Sul a partir do mês de maio.

O estudo está sendo realizado em nove cidades — Porto Alegre, Canoas, Pelotas, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Passo Fundo, Ijuí e Uruguaiana –- que representam 31% da população do Estado. Ele tem quatro objetivos: estimar o percentual de gaúchos que já desenvolveram anticorpos para a doença, portanto já foram contaminados; avaliar a velocidade de expansão da infecção ao longo do tempo; determinar o percentual de infecções assintomáticas; e possibilitar cálculos precisos de letalidade.

Resultados da segunda fase

A primeira fase da pesquisa foi realizada entre os dias 11 e 13 de abril e, na ocasião, duas das 4.189 pessoas testaram positivo para a presença de anticorpos do vírus. Extrapolando para a população total, significaria 0,05% dos gaúchos e 1 infectado a cada 2 mil habitantes.

Na segunda fase, realizada entre os dias 25 e 27 de abril, seis de 4,5 mil pessoas testaram positivo para a presença de anticorpos do vírus, o que representaria que, na ocasião, 0,13% da população já havia sido infectada, ou 1 a cada 769 habitantes do RS. A estimativa, portanto, era de que 15.066 já teriam anticorpos para o vírus na data. Comparando os dados oficiais com o resultado da pesquisa na mesma data, a estimativa é de que o RS tem 12 casos não notificados para cada confirmação oficial.

Contudo, o reitor da UFPel, Pedro Cury Hallal, ressaltou na apresentação que a pesquisa busca os anticorpos para o coronavírus e que, por isso, representa uma realidade de dias anteriores e não da data, porque casos recentes de infecção podem não ser detectados por esse teste. Além disso, ressaltou que a margem de erro indica que os resultados das duas fases não podem ser interpretados diretamente no sentido de que o número de casos triplicou e que o número de casos não notificados pode ser menor ou maior.

Por outro lado, para cada caso com resultado positivo, foram testados os familiares que moravam na mesma residência. Nesse novo teste — que não está incluído nos resultados da segunda fase –, 12 pessoas foram testadas e 9 tiveram resultados positivos, o que, segundo o reitor, confirma a eficácia do teste e que há uma transmissibilidade alta no ambiente doméstico.

Letalidade superestimada

Diante dos dados apresentados, a letalidade do coronavírus no RS seria de 0,33%, pois seria preciso calcular as 49 mortes sobre os 15.066 casos projetados, e não sobre os 1.350 casos confirmados, que leva a uma letalidade de 3,6%. No entanto, Hallal alertou que também é preciso considerar que a margem de erro indica que a letalidade pode estar num intervalo entre 0,15% e 0,87%.

Apesar de concluir que a letalidade está superestimada, Hallal ponderou que o coronavírus ainda representaria um grande risco para a sociedade, porque possui níveis altos de transmissão e que, extrapolando para os 11,29 milhões de gaúchos, representaria ainda um elevado número de mortes — 0,33% da população gaúcha equivale a cerca de 37 mil pessoas.

“De maneira nenhuma, a baixa letalidade pode ser interpretada como um sinal verde para a vida voltar ao que era anteriormente. Vai demorar muito tempo para voltar”, disse o reitor.

O reitor e o governador Eduardo Leite afirmaram que a subnotificação acontece porque a maioria dos casos são de pessoas que não apresentam sintomas. Respondendo a um questionamento feito ao final da transmissão sobre a possibilidade de o número de mortes por coronavírus também estar subnotificado, a secretária de Saúde, Arita Bergmann, afirmou que todos os óbitos registrados no RS por síndromes respiratórias agudas graves (SRAGs) estão sendo testados prioritariamente e que não há demanda reprimida no RS para análise desses casos, o que indicaria que não há um problema de subnotificação de mortes.

Adesão ao distanciamento em queda

Além do teste de anticorpos, a pesquisa também contou com a aplicação de um questionário sobre os níveis de adesão ao distanciamento social. Na primeira fase, 20,6% dos pesquisados haviam dito que estavam saindo de casa diariamente, 21,1% que ficavam em casa o tempo todo e 58,3% que saiam apenas para atividades essenciais. Nesta fase, 28,3% disseram que estavam saindo diariamente, 18,3% que não estavam saindo e 53,4% apenas para atividades essenciais.

Chamou a atenção também o fato de que a cidade de Passo Fundo, a segunda com o maior número de casos confirmados, teve o segundo maior percentual de pessoas que dizem estar saindo de casa diariamente (ver imagem abaixo), com 33,6%. Na outra ponta, Porto Alegre é a cidade com maior adesão ao distanciamento, com apenas 19,4% das pessoas dizendo que saem diariamente.

Foto: Reprodução

Apesar dos números apontarem para uma queda na adesão ao distanciamento, Leite considerou que eles ainda refletem que a maioria dos gaúchos está respeitando as restrições de circulação. Ele também destacou que a liberação controlada das atividades é uma necessidade, porque a projeção do governo é de que será preciso conviver por um longo período com medidas restritivas, o que faz necessário, segundo ele, equilibrar a atividade econômica e o distanciamento social.

Fonte: Sul21

Foto: Luíza Castro/Sul21