22ª Conferência Nacional dos Bancários: momento é de defesa da democracia e do Estado brasileiro

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Uma das categorias mais atingidas e ameaçadas pela pandemia e pela aplicação de regras trabalhistas que se sobrepõem aos acordos coletivos, os bancários realizaram, nos dias 17 e 18, a sua 22ª Conferência Nacional, início da campanha unificada da categoria, que reúne hoje cerca de 453 mil trabalhadores em todo o país. Para abrir os debates, a Confederação Nacional dos Bancários (Contraf-CUT) convidou para uma live nomes de peso da oposição de esquerda – o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, o ativista Guilherme Boulos, o ex-prefeito e ex-ministro da Educação, Fernando Haddad e o governador do Maranhão, Flávio Dino.

Para além do convite a expressivos nomes da esquerda democrática, a presidenta da Contraf, Juvândia Moreira, não deixa dúvidas do tom que irá marcar a campanha unificada deste ano: “Qual foi a primeira medida tomada por este governo quando chegou a pandemia? Conceder R$ 1,5 trilhão para proteger os bancos! Assistimos agora a mais uma investida do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre as empresas públicas. Ele já vendeu uma carteira de crédito do Banco do Brasil para o BTG Pactual, instituição para a qual trabalhava! Eles pensam que o Brasil está à venda, mas não está. Por isso, pelo emprego, pela vida, pelo povo brasileiro precisamos tirar esse governo, porque eles já mostraram a quem representam, e não são os trabalhadores”, afirmou.

Genocídio

Todos os participantes destacaram que o Brasil erra muito na condução da crise e está na contramão até mesmo de governos conservadores como o de Angela Merkell, na Alemanha, ou de Trump, nos EUA, que não hesitaram em emitir dinheiro para movimentar a economia e evitar um colapso econômico ainda maior.  

O ex-presidente Lula comparou a crise a um “cacho de bananas dos grandes”, um elenco de crises, uma situação que já era grave antes da pandemia, mas que agora se caracteriza como genocídio. “Outra vez vocês, bancárias e bancários, serão chamados a ter um papel importante em defesa da democracia, juntamente com outras categorias de trabalhadores. Como em outros momentos, vocês vão ter que misturar a política com as lutas reivindicatórias. Temos que mexer com os trabalhadores, incluir os milhões na economia informal, os milhões de desempregados nessa luta. A política deve ter prioridade em nossa atuação em alguns momentos da história”, afirmou ele.

Os militantes, os dirigentes sindicais e os representantes dos trabalhadores, defende Lula, não devem ter preocupação de gritarem bem alto ‘Fora Bolsonaro’: “é preciso que os trabalhadores saibam que fazemos a crítica ao Bolsonaro porque ele é incompetente e não tem solução para os problemas. Na sua incapacidade de encontrar gente séria na sociedade civil para cargos no seu governo, acha que resolve tudo colocando generais em qualquer lugar. General pode ser bom para muitas coisas, mas ele não serve para tudo”, criticou o líder petista.

Guilherme Boulos, que é pré-candidato a prefeitura de São Paulo, destacou que uma das falácias que a crise do coronavirus pôs a nu é a ideia do mercado como agente regulador de ações sociais, cujos resultados foram o superfaturamento dos respiradores e até do álcool em gel. Na opinião dele, o país está vivendo a maior crise de sua geração. “Além da pandemia, temos aqui o pandemônio, sem ministro da Saúde, sem um mapeamento de casos e com o presidente aproveitando esse desastre humanitário para promover o autoritarismo, num cenário que poderá ser devastador”, afirma. Entre as lições, ele cita ainda a valorização do SUS e a importância dos bancos públicos e da Caixa em particular, na distribuição do auxílio emergencial.  

Entulho autoritário

O governador do Maranhão, Flávio Dino, ressaltou que o coronavírus mostrou a centralidade do Estado como provedor de direitos. Ao lembrar do período em que advogava para o Sindicato dos Bancários do Maranhão, Dino disse que em um próximo governo progressista os trabalhadores terão que lutar para remover o que chamou de “entulho autoritário” atual, as mudanças promovidas na legislação trabalhista que destroem a organização dos trabalhadores e é contra os sindicatos.

“Isso não diz respeito aos sindicalistas apenas, mas a todos que acreditam na democracia e na eliminação das desigualdades sociais”, afirmou.

Flávio Dino também alertou para as ameaças às políticas públicas que ainda restam no Brasil, como o Bolsa Família. “Sem política social, sem o Bolsa Família, sem o auxílio emergencial, estaríamos vivendo saques, caos e desespero, como antes já vivemos no Brasil, afirmou o governador do Maranhão.

Orçamento da defesa

O professor e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, também destacou que vivemos um momento delicado no Brasil. “Nessa semana me chamou a atenção o Plano Nacional de Defesa, que vazou para imprensa. O governo brasileiro está dizendo que nossa região não é mais pacífica e está em crise e tensões. Qual é a crise e tensão militar na nossa região que envolve o Brasil desde a guerra do Paraguai? Assim como pagamos um militar para servir aos Estados Unidos meu temor é que estamos aumentando o orçamento do Ministério da Defesa para comprar uma guerra que não é nossa”, afirmou.

Outra ação nesse sentido, destaca Haddad, é a demanda do Ministério da Defesa para aumentar de 1,3% do PIB para 2% do PIB o orçamento das Forças Armadas. “Quando falamos em um aumento de 0,7% do PIB, são números muito abstratos. Mas, para ficar mais claro, estamos falando em mais de R$ 7 trilhões. É um orçamento adicional de R$ 50 bilhões por ano. Em 10 anos isso dá 500 bilhões. Vocês lembram que o Guedes vendeu a reforma da Previdência falando que o Estado iria economizar R$ 1 trilhão. Agora ele quer gastar com um orçamento adicional do Ministério da Defesa metade do que ele diz que iria economizar. Pra que?”, questionou.

 Mobilização

 O ex-prefeito disse que é o momento de ir pra rua para defender os bancos públicos. “Sem os bancos públicos o Brasil não tem como se desenvolver”, disse. “Assim como temos que defender o auxílio emergencial, que Bolsonaro quer acabar e é o que minimamente está sustentando a economia, que está em frangalhos”, completou.

Ele acredita que é possível, ao citar os movimentos da educação, que evitaram o corte no orçamento no ano passado e das torcidas organizadas que frearam o fascismo nas ruas. “Isso é um sinal de que a reação ao Bolsonaro tem aumentado. Temos que confiar na sociedade, que demonstrou capacidade de reação e também na nossa capacidade de mobilização. Os elementos estão dados e temos que estar mais juntos do que nunca”, concluiu.

Fora Bolsonaro

Sérgio Takemoto, presidente da Fenae, resumiu o sentimento dos participantes da 22ª Conferência, que reuniu 635 delegados de 118 sindicatos e 10 federações: “A campanha salarial vai ser muito difícil porque além de lutar pela manutenção dos nossos direitos, estamos enfrentando um governo que não respeita a vida. O Paulo Guedes acaba de anunciar que vai retomar o processo de privatização das coligadas da Caixa, ou seja em plena pandemia o governo só se preocupa em vender as empresas e privatizar o que é do povo. Por isso é importante que a gente diga em alto e bom som “Fora Bolsonaro”, porque não dá para conviver com um governo genocida. Mas já enfrentamos outros momentos difíceis, e superamos, e com muita unidade nós iremos superar esse e lutar pela manutenção dos bancos públicos, em defesa da unidade das negociações em mesa única e pelos nossos direitos”, afirmou.

Com informações Fenae

Foto: Divulgação/Fenae