Museu e Centro Cultural resgatam a história dos negros em Pelotas

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* Por Eduardo Silveira de Menezes

Muito se fala dos prédios históricos de Pelotas, de um passado de opulência, cujo ápice se deu nas últimas três décadas do Império Brasileiro. Mas, ao recontar o período em que o município vivenciou a sua melhor condição de desenvolvimento econômico, nem sempre é dado o valor necessário aos protagonistas desse processo. É esse o propósito de um projeto idealizado por Luís Carlos Mattozo, que está sendo proposto em parceria com o Conselho do Negro de Pelotas, a Comissão de Combate à Desigualdade Racial da OAB, a Companhia de Dança Daniel Amaro e a ativista Marielda Barcellos do Canto da Conexão.

A iniciativa possui duas frentes de trabalho. A primeira diz respeito à construção do Museu do Percurso Negro de Pelotas – um espaço à céu aberto, construído através de monumentos e espaços públicos históricos da cidade, resgatando o papel do negro para o progresso da região. Conforme explica o idealizador do projeto, Luís Mattozo, ao resgatar esse patrimônio material e imaterial reafirma-se a identidade da cultura negra durante o processo de formação não só do município, mas do estado e também do país. “Nós temos uma rica história que precisa ser contada. E esse resgate é fruto de um extenso trabalho que pesquisa, que envolveu intelectuais, escritores, militantes e ativistas do movimento negro de Pelotas”, diz Mattozo. 

No início deste mês de novembro, o projeto do Museu está sendo protocolado junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que é a entidade responsável pelo tombamento do Passo dos Negros como Patrimônio Cultural. Essa medida irá viabilizar a consolidação da iniciativa, que será colocada em prática por meio de monumentos e espaços públicos históricos da cidade. Um deles é a Chácara da Brigada, que fica localizada no entorno do Arroio Pelotas, mas a proposta inclui, ainda, o Mercado Público, a rua Zumbi dos Palmares, os sete quilombos da cidade e demais fatos históricos relacionados à cultura negra de Pelotas que se tem registro.

 A segunda frente em que os responsáveis pelo Projeto estão trabalhando diz respeito à construção de um outro espaço, neste caso fixo, que é o Centro de Referência da Cultura Negra. Este espaço irá promover atividades permanentes para que a  comunidade, de modo geral, possa ter contato com as diversas manifestações culturais e religiosas da comunidade negra no município. “A ideia é criar este segundo espaço para viabilizar eventos ligados ao carnaval, ao samba, à dança, à culinária, ao teatro e às diferentes manifestações das religiões de matriz africana que estão em atividade no município”, explica Mattozo.

Antigo Prédio da Secretaria de Finanças – Foto Luíz Mattozo

Hoje, em Pelotas, atuam aproximadamente 500 casas de religiões africanas.  O prédio escolhido para sediar o Centro é o da antiga Secretaria de Finanças, que também sediou o Banco do Brasil. O espaço encontra-se abandonado, tendo sido isolado pela Prefeitura, após ocorrer o deslocamento da sacada, em função das fortes chuvas que tem ocorrido na região. O projeto para a utilização deste espaço como sede do Centro já foi apresentado ao Governo do Estado e para a Prefeitura de Pelotas, e está sendo encaminhado à Fundação Zumbi dos Palmares.

* Jornalista do Sindicato dos Bancários de Pelotas e Região

Foto em destaque: BR-PHOTO VIA GETTY IMAGES