RS: profissionais da saúde relatam rotina difícil com explosão de covid-19 em hospitais

arquivo pessoal

De dez leitos que eu tenho, dez estão com pacientes entubados”, diz Cláudia da Silva, enfermeira que atua na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) voltada para o tratamento de pacientes de covid-19 no Hospital Centenário, de São Leopoldo. “Eu nunca vi antes uma situação de ter todos os pacientes de UTI entubados”, complementa.

O relato de Cláudia acompanha a explosão no número de internações de pacientes que testaram positivo para a doença causada pelo novo coronavírus na Região Metropolitana de Porto Alegre e em todo o Rio Grande do Sul, desde o início de junho. No RS, após o nível de ocupação de UTIs por pacientes de covid-19 permanecer abaixo dos 20%, somando confirmados e suspeitos, nos primeiros meses da pandemia, essa taxa já estava em 43% nesta quarta-feira (15). Dos 1.703 pacientes internados em UTIs adulto no RS — 75,2% da capacidade para o atendimento a todas as doenças –, 560 já testaram positivo para covid-19 e 167 são suspeitos.

Na Capital, em 1º de junho, todos os hospitais, públicos ou privados, somavam 45 internações simultâneas. No boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) na terça-feira (14), eram 238 pacientes, mais de cinco vezes a mais do que há 45 dias.

Outro complicador, explica Cláudia, é que os pacientes que estão sendo internados no momento também apresentam, em média, quadro mais grave do que nos primeiros meses da pandemia. “Tanto em UTI adulto, quanto neonatal, eu nunca tive todos os pacientes entubados. Na covid, eu estou tendo todos os pacientes entubados. Os que são graves, evoluem para tubos”, diz a enfermeira.

Ainda segundo Cláudia, a gravidade dos casos traz uma carga adicional de trabalho, uma vez que demanda mais atenção e mais profissionais atuando em cada atendimento. “A cada duas horas, tu tem que virar a cabeça do paciente entubado, porque, senão, ele pode contrair lesões muito sérias na face”, exemplifica.

Pelas recomendações do Conselho Regional de Enfermagem do RS (Coren-RS), uma unidade de UTI deveria contar com um técnico de enfermagem para cada dois pacientes internados e um enfermeiro para cada dez. Além de isso ser uma realidade pouco comum no cenário de pandemia, em que muitos profissionais estão afastados por terem sido contaminados, mesmo quando os plantões conseguem ter essa média, os profissionais estão sobrecarregados, segundo a enfermeira.

“Não é só uma UTI, porque ela tem porta aberta, recebe SAMU, recebe paciente de fora”, diz. “A maior angústia que eu tenho é que, daqui a pouco mais, a gente vai ter pessoas que vão chegar na porta para atendimento, com uma falta de ar, não conseguindo respirar, dizendo ‘por favor, me salvem’, e a gente não vai ter onde botar esse paciente. Em outros momentos, na emergência, a gente dava um jeito. Aperta um aqui, outro ali, mas, na covid, eu não posso. Não posso colocar eles muito próximos, porque, se eu colocar um paciente que é positivo com outro que não é, eu vou contaminar aquele que não é positivo”.

Cássia Beltrame, pneumatologista do Hospital São Vicente de Paulo de Passo Fundo (HSVP), diz que o crescimento de internações já era esperado com a chegada do inverno, que, no Rio Grande do Sul, sempre vem acompanhada do aumento de casos de vírus respiratórios. “Então, talvez aquele início deu uma falsa sensação de tranquilidade para a gente. O Estado tava muito bem e a gente não tinha tantos casos. Agora, principalmente nos últimos 15, 20 dias, a gente uma elevação bem expressiva no número de casos”, diz.

A região de Passo Fundo foi uma das primeiras a entrar em bandeira vermelha no modelo de distanciamento controlado proposto pelo governo Eduardo Leite. Chegou a liderar os índices de mortos por covid-19 no Estado — atualmente é segunda em casos e óbitos, atrás apenas da Capital — e, nas últimas semanas, têm entrado e saído da bandeira vermelha, tendo voltado na última atualização semanal. Cássia ressalta que, até o momento, a região ainda não está sob risco de colapso.

“A gente trabalha todo dia com medo de que possa, realmente, vir a faltar ventilador, que possa vir a faltar leito de UTI, mas, felizmente, a gente está conseguindo manejar para que os pacientes possam receber o melhor atendimento”, diz.

Por outro lado, ela sabe que, pelo histórico, o pico das doenças respiratórias deve se estender ainda de 45 a 60 dias no Estado e que, aí assim, poderia chegar a um estágio de saturação dos sistemas hospitalares. “Esses pacientes que vão para a terapia intensiva são pacientes que ficam muito tempo, muitos dias. Quando a gente compara com uma pneumonia bacteriana que precisa de suporte da UTI, esses pacientes com covid demandam um tempo muito maior na UTI, o que diminui o fluxo e a disponibilidade de leitos”, explica.

Trabalhando desde março no enfrentamento ao coronavírus no Hospital Conceição, em Porto Alegre, a médica intensivista Juliana Giacomelli Cao afirma que a piora do quadro da pandemia é perceptível nas últimas semanas. Além do aumento no número de internações, ela corrobora o relato de que os pacientes que chegam aos leitos de UTI estão em estado mais grave. Apesar de ainda não ser possível falar em falta de leitos, ela destaca que, na segunda-feira (13), quando foi entrevistada por telefone, todos os 44 leitos das três unidades de UTI dedicadas ao tratamento da covid no Conceição estavam ocupados.

Uma característica da doença é que há uma alta variabilidade na necessidade de tempo de tratamento para cada paciente. Mesmo entre os casos graves, há aqueles que precisam de internação na UTI por dois ou três dias e aqueles que passam mais de um mês internados. Nas últimas semanas, o Conceição tem visto o crescimento dos casos de pacientes que demandam mais tempo de internação.

Além disso, a intensivista percebe, na prática, que já não é mais possível dizer que apenas idosos têm complicações. “Tem muitas pessoas que estão tendo sintomas leves, estão em casa, não estão internando, mas, entre quem está vindo para a UTI, tem gente de 20 e poucos. Claro, tem mais idosos? Tem. Mas tem muita gente jovem, sem doenças. Isso assusta”, diz.

A sobrecarga

Juliana cumpre, diariamente, seis horas de plantão das chamadas rotinas de UTI, começando às 7h30. Isto é, cabe a ela visitar os pacientes que estão internados em UTIs. Nas últimas semanas, a rotina ficou tão intensa que ela tem tomado apenas meia xícara de leite no café da manhã para evitar ir ao banheiro. Não que seja uma orientação do hospital, diz. Mas, dado o volume de trabalho, não há tempo para pausas.

Para Cláudia, que trabalha em turnos de 12 por 36, isto é, um dia e meio de descanso para cada 12 horas trabalhadas, a demanda de alguns plantões também sequer tem permitido pausas. “Eu trabalho à noite, tem vários plantões que eu já não faço mais intervalo para não deixar a equipe sem assistência. No último plantão, eu saí com os dedos do meu pé quadrados, de tão apertado que fica no sapato e por não tirar para dar uma descansada”, diz.

Diante do risco de propagação da covid, o trabalho já começa a ser redobrado no processo de paramentação. Em razão do alto risco de contágio, cada paciente permanece em isolamento em um “box”, que exige uma paramentação específica e mais segura do que aquela usada para circular nos corredores da UTI. Cada entrada e saída de um box exige o trabalho de colocar e retirar essa paramentação específica.

Ao chegar a um plantão, o técnico de enfermagem Marcel Lima, do Conceição, veste um traje próprio para quem atua em área fechada, com pacientes em isolamento. Antes da pandemia, esse era o único traje necessário para o técnico de enfermagem iniciar suas atividades. Agora, precisa também de uma proteção nos pés, uma touca cirúrgica, uma máscara do tipo N95, um avental impermeável que não deixa passar nenhum tipo de suor ou substância produzida pelo corpo, e um par de luvas. Ao entrar em um box para atender um paciente confirmado com covid, ainda veste um terceiro avental que previne a transmissibilidade de partículas que estão na superfície. Além disso, há o cuidado redobrado com o processo de higienização. “Só para tu ter uma ideia, para entrar dentro de um box até chegar ao paciente, eu preciso higienizar as minhas mãos no mínimo três vezes. E para sair também”, diz Marcel.

A intensivista Juliana acrescenta que, em alguns casos, ela já está iniciando o processo de saída do box quando há uma alteração no quadro do paciente, o que a obriga a repetir os protocolos de higiene e paramentação antes de retornar ao box. “É sem parar, a gente não para. É um trabalho que a sensação que a gente tem, quando sai de lá, é que não conseguiu fazer tudo, porque é muito pesado, é trabalhoso. São pacientes que estão muito graves”, diz.

Marcel explica que, inicialmente, havia um grande receio dos profissionais quanto à paramentação e à possibilidade de que os equipamentos de proteção pudessem vir a faltar. No entanto, diz que, até agora, não há registro de falta de EPIs no hospital, ao passo que o próprio processo de paramentação já está se tornando um hábito naturalizado.

A sobrecarga de trabalho é agravada pelo fato de que muitos profissionais de saúde estão ficando adoecidos e não há como, neste momento, haver reposição adequada.

De acordo com os dados tabulados pela Secretaria Estadual de Saúde até quarta (15), dos 42.239 casos confirmados de covid-19 no Rio Grande do Sul, 4.741 eram de profissionais da saúde.

A enfermeira Cláudia pontua que, ao menos na área da enfermagem, os hospitais estão tendo dificuldades para contratar profissionais experientes e que, por isso, acabam contratando profissionais recém formados, que são aqueles que acabam se dispondo a enfrentar os riscos e receber os baixos salários oferecidos no momento.

Neste cenário, é dirigida aos mais experientes a tarefa de realizar o treinamento dos novos colegas, o que também acaba se tornando uma nova demanda em meio à pandemia. “Além de cuidar do paciente, a gente acaba tendo que treinar essas pessoas. Isso é uma realidade que está acontecendo em vários lugares, não é só no meu hospital”, diz.

O afastamento de profissionais faz com que a pneumologista Cássia, de Passo Fundo, precise cobrir duas ou três escalas de plantão, de segunda a segunda. De cabeça, ela não sabe quantas horas por dia está fazendo, mas estima que, semanalmente, trabalha pelo menos 20 horas a mais do que antes da pandemia. “Tem vários colegas doentes e tem que ter médico lá, tem que ter enfermeiro, tem que ter técnico. Então, a gente tem que se desdobrar, fazer muito mais horas do que normalmente a gente fazia, mais até do que é recomendado, porque não pode deixar os plantões desassistidos”.

O fator emocional

Antes da pandemia chegar, o técnico de enfermagem Valmor dos Santos Rodrigues trabalhava na unidade do Conceição dedicada a pacientes com problemas vasculares. Em março, o espaço foi transformado em unidade de atendimento para pacientes confirmados com covid. “No início, final de março, abril, estava bem mais tranquilo, tanto é que o hospital tinham quatro unidades de covid, sendo três de suspeitos e uma apenas de confirmados. Agora, com o ápice da pandemia, o hospital inverteu, temos três unidades de pacientes confirmados e uma apenas de suspeitos”, relato.

A unidade de Valmor, que abrigava até 40 leitos, agora tem capacidade máxima de 24. Isso ocorre porque um paciente positivado para covid-19 precisa ficar em isolamento total de outros, aumentando a distância mínima entre um leito e outro.

Além de estarem isolados uns dos outros, os pacientes de coronavírus também não têm a possibilidade de receber a visita de familiares e amigos. “É uma relação bastante desafiadora para nós profissionais, porque nós, da enfermagem, acabamos sendo aquele profissional que não somente trata o paciente em relação a medicamentos, higiene e conforto, mas também está fazendo a parte psicológica, o que é bem pesado, porque lidar com uma pessoa que está 24 horas trancada dentro de um quarto, sozinha, sem receber praticamente nenhuma notícia dos familiares que estão na rua, eles ficam muito tensos”, diz Valmor.

Fora, é claro, a própria condição da doença, cujo tratamento ainda é bastante imprevisível. “Eles ficam também bastante ansiosos. Porque hoje o médico dá um prognóstico, amanhã já pode mudar. Hoje o paciente dá uma boa melhorada, de repente amanhã já começa a afundar. Então, isso causa bastante temor para eles”, diz o técnico de enfermagem.

Outro drama que acompanha o aumento na ocupação das UTIs é o aumento no número de mortes, e consequentemente no número de vezes que os médicos precisaram comunicar o falecimento aos familiares.

“Às vezes, há casos de mais de um familiar internado e em hospitais diferentes. Já aconteceu de um esposo falecer num hospital e a gente não conseguir dar a notícia para a sua familiar que tava aqui com a gente. É difícil, todos os dias a gente dá más notícias. Porque não tem como tu dizer para uma pessoa: ‘fica tranquilo, com certeza vai sair’”, diz Juliana Giacomelli.

A covid-19 ainda traz outro fator novo para o cotidiano dos profissionais de saúde. Conforme relata Cássia, a maioria dos pacientes já chega ao hospital com uma lista de remédios que deseja ver os médicos prescreverem para o tratamento de covid, quando antes era comum apenas os pacientes alertarem quais remédios já haviam utilizado e se tinham alergias. “Agora não, o paciente já chega cheio de pré-conceitos  que antes não existiam”.

Para a pneumologista, isso é um reflexo do grande fluxo de informações que circula sobre o coronavírus, o que acaba aumentando a ansiedade do paciente em relação ao tratamento. “E, algumas vezes, é uma informação que vem de uma maneira distorcida para o paciente. A gente tem que definir qual é a melhor terapia para o paciente não baseado no que veio numa notícia do WhatsApp, mas do que a gente realmente tem evidências científicas do que é melhor para o paciente”, afirma Cássia.

O medo de se tornar um vetor

A covid-19 ainda trouxe uma outra sobrecarga aos profissionais de saúde, que é o medo de eles próprios se tornarem vetores da doença para familiares, colegas e amigos. Diferentemente de outras doenças respiratórias, que ou não são transmissíveis ou já possuem vacina, a covid-19 traz a todo momento o risco de os profissionais se contaminarem em serviço.

Há quem tenha optado pelo isolamento total, como é o caso de Cláudia Silva, que está morando sozinha e conta que faz apenas compras no mercado fora dos ambientes de trabalho e domiciliar. Ainda assim, deixa para fazer as compras no retorno de um plantão para aproveitar a saída de casa.

Para Valmor, o distanciamento da família não era uma possibilidade. Com uma mãe cadeirante, idosa e portadora de comorbidades que depende dele para tarefas rotineiras, o contato precisa ser diário. “É um nível de tensão muito alto sair do trabalho todos os dias com a dúvida se será que eu estou ou não estou [contaminado]. Numa dessas, acaba acontecendo de eu me contaminar, passar para ela e ela vir a complicar, ou até vir a óbito. Nossa, na cabeça da gente, vem um turbilhão”, diz.

Nestas circunstâncias, Valmor afirma que um dos principais desafios é manter a estabilidade emocional e o equilíbrio, principalmente para conseguir dar um atendimento adequado aos pacientes, bem como para manter os cuidados de precaução e higienização para não levar o vírus para dentro de casa. Contudo, ele avalia que, no momento, o maior risco de contaminação dentro dos hospitais está fora da área dedicada ao tratamento de pacientes com covid-19. No Conceição, os surtos recentes ocorreram na chamada “área aberta”, de atendimento a outras doenças. “A gente comenta muito que nós, na área do covid, que é o isolamento, a gente se sente muito mais protegido desde o início do que os colegas que estão em área aberta, porque não tem os mesmos cuidados, porque não sabem ou não imaginam que o paciente possa ter alguma coisa”, diz.

Marcel compartilha do temor de levar o vírus para a família. “Acho que o nosso maior receio não é nem nós pegarmos o vírus, porque nós escolhemos a profissão e estamos ali para cuidar do outro. Então, o maior anseio é transmitir esse vírus para alguém do nosso lar. Recentemente, nós tivemos uma colega que teve a mãe que ficou internada, graças a deus teve alta. De fato, nós nos preocupamos, mas principalmente nos preocupamos em não ser um vetor”.

Segundo a enfermeira Cláudia, é cada vez mais comum a chegada de pacientes que dizem que não acreditavam na gravidade da doença. “A pessoa se sentia bem, não sentia nenhum mal estar. Tinha aquela história de que ‘é uma gripezinha’. Então, ela vai levando a vida, vai contaminando as pessoas no caminho e, quando a gente vê, a família inteira está contaminada. Daí, uma das pessoas, mais adiante, acaba desenvolvendo uma forma um pouco mais grave, precisa de atendimento e chega no hospital, porque precisa de oxigênio e não deu para manter em casa”, diz. “Elas acabam nos contando: ‘Testei, mas não levei a sério, fiz festa com a família’. É uma irresponsabilidade coletiva, que tem essa repercussão toda”.

Com informações Sul21

Foto: Valmor Rodrigues/Arquivo pessoal