Amazônia tem ‘três cidades de São Paulo’ desmatadas e risco de queimadas

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A nota técnica divulgada na segunda-feira (8), pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), alerta para o risco de uma “tempestade perfeita” que pode atingir a Amazônia brasileira a partir deste mês. A preocupação leva em conta uma eventual interação do aumento do desmatamento – seguido da chamada “temporada do fogo” de queimadas – com a pandemia do novo coronavírus. A combinação desses fatores terá potencial de provocar mais mortes na região, de acordo com relatório.

A nota é assinada por pesquisadores do Ipam, da Universidade Federal do Acre (Ufac) e da Universidade de São Paulo (USP). Assinam o estudo Paulo Moutinho, Ane Alencara, Ludmila Rattisa, Vera Arruda, Isabel Castro e Paulo Artaxo. Segundo eles, o período de seca e queimadas previsto a partir deste mês até agosto “pode ser igual ou mais intenso do que aquele que a atingiu a região em 2019“.

Com base em dados do sistema Deter do Instituto de Pesquisas Espaciais – que vêm desde o ano passado, mostrando que o desmatamento cresce em níveis alarmantes no bioma –, o Ipam identificou um perímetro de 4,5 mil quilômetros quadrados na Amazônia que está passível de ser queimado. Toda essa área equivale a três vezes o município de São Paulo. E é resultado do que foi desmatado no final de 2019, e não queimou, com o que foi devastado neste início de ano.

“Há uma grande extensão de terreno na Amazônia coberta de árvores mortas e secas, à espera da estiagem que se aproxima para ser queimada”, indica a nota técnica.

Se virar fumaça

Quatro estados concentram 88% da área desmatada e que corre risco da queima. O Pará lidera com 42% desse total, seguido por Mato Grosso (23%), Rondônia (13%) e Amazonas (10%). E a categoria fundiária que poderá ser mais atingida pelas chamas são as florestas públicas estaduais e federais sem destinação. Ou seja, áreas sem informação cadastral, que representam 29% desse terreno. Assim como imóveis rurais, com 26%, e assentamentos, com outros 25%.

Há anos os pesquisadores de todo país alertam para o desmatamento como um fator de impulsionamento às chamas. Além de advertir contra o uso do período de estiagem pela própria ação humana. De quem faz das queimadas para “limpar o terreno” depois da derrubada das árvores. Cujo objetivo é de utilizar a terra para atividades econômicas como o cultivo agrícola e pastagem para gado.

Diante disso, o risco é que esta estação de seca seja marcada por grandes incêndios. No mínimo comparáveis como aqueles ocorridos em 2019 – que chocou o mundo pela gravidade histórica. “Se assim for, haverá uma produção de enormes quantidades de fumaça carregadas com particulados finos afetando a saúde das pessoas”, relaciona os pesquisadores do Ipam. “Todo ano, na Amazônia, essa fumaça das queimadas leva uma legião de pessoas aos hospitais à procura de tratamento por conta de problemas respiratórios. A suspensão de particulados finos afeta a saúde principalmente de crianças e idosos que vivem na região.”

Saúde pública e a covid-19

O relatório aponta que já ano passado, com as queimadas recordes, os municípios mais atingidos, como Rio Branco, entre outras cidades do Acre, apresentaram o ar 53% mais poluído, em média, do que em 2018.

A preocupação com a saúde pública fica ainda maior com devido à pandemia da covid-19, como explica o Ipam. Principalmente na Amazônia, que já levanta duas tendências preocupantes, na avaliação dos pesquisadores. O avanço do novo coronavírus entre as populações indígenas e a fase de “interiorização” da infecção em cidades com uma frágil estrutura de saúde pública.

“Aumentos extras da demanda por tratamentos de doenças respiratórias podem colocar uma pressão sem precedentes sobre o sistema de saúde da região”, afirma a nota técnica. A região Norte do país, até o final de maio, já registrava a maior taxa de incidência da doença (584,6) e de mortalidade (30,9) por 100 mil habitantes.

A nota técnica se encerra com uma série de recomendações. E destaca que é urgente que os governos municipais, estaduais e federal coordene ações. O objetivo é evitar que essa imensa área seja consumida pelas chamas e traga sérios risco de agravar a saúde da população local.

Fonte: RBA e Sul21

Foto: Doug Norton/Nasa