27ª Conferência Nacional dos Bancários reforça defesa da soberania nacional e direitos trabalhistas
27ª Conferência Nacional dos Bancários reforça defesa da soberania nacional e direitos trabalhistas
O sistema bancário brasileiro vive um momento de grandes transformações. Entre o avanço da tecnologia, as tentativas de precarização dos direitos trabalhistas e ataques à soberania nacional, a categoria bancária vem se articulando para resistir e propor alternativas. Em meio a esse cenário, a 27ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada em São Paulo entre os dias 22 e 24 de agosto, foi marcada por debates estratégicos que vão nortear a atuação sindical até 2026.
Durante entrevista ao programa Edição da Manhã da RádioCom Pelotas, Lucas Cunha, diretor de Comunicação e Cultura do Sindicato dos Bancários de Pelotas, detalhou os principais temas abordados no evento, reforçando a importância da organização e da mobilização da categoria.
Soberania nacional e defesa do Banco do Brasil
Para Lucas, a defesa da soberania nacional foi o eixo central da conferência. Ele criticou os ataques recentes direcionados ao Banco do Brasil por grupos ligados ao bolsonarismo, incentivados por discursos políticos que questionam a independência das instituições públicas. “É impensável atacar um banco que é fundamental para as políticas públicas, inclusive para o agronegócio”, afirmou.
Uma das resoluções da conferência foi a convocação de um ato nacional em defesa do Banco do Brasil, com o slogan “O BB é dos brasileiros”. O dirigente lembrou que a soberania nacional está sendo ameaçada por tentativas de interferência de legislações estrangeiras no sistema bancário nacional, o que considera inadmissível. “Quem se diz patriota não pode estar promovendo boicote a um banco público com mais de 200 anos de história”, pontuou.
Inteligência artificial e precarização do trabalho
Outro ponto de destaque foi o avanço da inteligência artificial no setor bancário. Segundo Lucas, a automação ameaça diretamente os empregos da categoria. Ele citou exemplos como a assistente virtual BIA, do Bradesco, e sistemas implementados pelo Itaú que já substituem gerentes no atendimento a empresas. “Estamos falando do risco real de extinção de postos de trabalho bancário”, alertou.
A conferência defendeu a regulamentação do uso da inteligência artificial, das redes sociais e da internet como forma de proteger tanto os trabalhadores quanto os consumidores. “Hoje é uma terra sem lei. Quem será responsabilizado por erros cometidos por inteligências artificiais?”, questionou o sindicalista.
Saúde mental e metas abusivas: uma crise silenciosa
A saúde mental dos bancários foi amplamente debatida. O dirigente denunciou que as metas abusivas continuam sendo fonte de adoecimento dentro das agências, com impactos diretos na qualidade de vida e no bem-estar dos trabalhadores. “Burnout, ansiedade e depressão viraram epidemias no setor bancário”, destacou.
Lucas relatou que mesmo com ações preventivas promovidas pelo sindicato, como grupos de apoio e atendimentos psicológicos, os casos continuam alarmantes. “Tivemos um caso de suicídio de um bancário aqui na nossa base no final do ano passado. Isso mostra a urgência do debate”, disse.
Fechamento de agências e exclusão digital
O encolhimento das agências físicas, especialmente após a pandemia, também foi tema de preocupação. Lucas denunciou que bancos como Santander e Bradesco têm liderado um processo acelerado de fechamento de unidades, muitas vezes sem considerar as condições de acesso da população.
“O atendimento digital é empurrado goela abaixo, enquanto regiões inteiras do país ainda sofrem com falta de internet e inclusão digital”, explicou. Segundo ele, o fechamento das agências não apenas retira empregos, mas também afasta os bancos das comunidades que mais precisam deles.
Fintechs e a fragmentação da categoria bancária
A precarização dos vínculos trabalhistas também avança com a proliferação das fintechs e cooperativas financeiras. Lucas chamou a atenção para o fato de que muitos trabalhadores exercem funções bancárias, mas não são reconhecidos como bancários, o que os impede de acessar direitos garantidos pela convenção coletiva da categoria.
“Hoje temos 1 milhão de trabalhadores no ramo financeiro, mas menos da metade são considerados bancários. Os outros estão sob outros CNPJs, com salários menores e jornadas maiores”, explicou. A conferência aprovou uma resolução que exige a regulamentação do setor para garantir isonomia de direitos.
Greve de 1985: memória e inspiração
A conferência também foi espaço para resgatar a memória da histórica greve de 1985, considerada a primeira grande mobilização da categoria após a ditadura militar. Na época, a mobilização conquistou a redução da jornada de trabalho e o reconhecimento dos funcionários da Caixa Econômica como bancários.
“É uma história que precisa ser celebrada e usada como inspiração para os desafios que estão por vir. Foi a luta que nos garantiu direitos, e será com luta que vamos preservá-los”, afirmou Lucas.
Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.
Fonte: RádioCom Pelotas