A Negra Pelotas que ninguém quer lembrar *

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É impossível pensar na constituição da cidade de Pelotas sem pensar na contribuição da sabedoria, cultura e força de trabalho africana. Mesmo a historiografia oficial nos colocando como presença subalterna ou inferiorizada, ou mesmo resumida ao trabalho braçal. A negritude pelotense é mais do que isso! A herança e cultura africana está presente nas distintas formas de organização política, econômica, cultural e simbólica forjadas nas inúmeras formas de resistência que hoje celebramos nesse mês de novembro. Mês forjado pelo movimento social negro em especial pelo Grupo Gaúcho Cultural Palmares, liderado por Oliveira Silveira na década de 1970, não aceitando o “13 de Maio” como data negra e nem a Princesa Isabel como heroína e sim Zumbi dos Palmares, o verdadeiro Rei da liberdade. Lembrando e (re) memorando a luta de mulheres e homens negros nos revelam uma liberdade forjada no movimentar de um corpo seja no terreiro, seja na luta operária, seja na dança.

A Pelotas Negra que ninguém quer lembrar, forja sua resistência na relação como sagrado, com deuses e deusas de uma matriz africana, hoje conhecida como o Batuque, uma tradição expressa em uma das maiores riquezas culturais da cidade, nos seus doces, que também serviam como intercâmbio na relação com as divindades. Ninguém quer lembrar das organizações em Irmandades religiosas, em blocos carnavalescos que demostram um cultural/político que utilizou-se da arte, da rua e da religiosidade como forma de denúncia das atrocidades e consequências de um modo de produção escravocrata. Em seguida, percebe-se essa organização e resistência na consolidação de um capitalismo dependente, que destina os corpos negros a condições vulneráveis de existência, sendo denunciados, na década de 1930, pela Frente Negra Brasileira e, aqui na cidade, pela Frente Negra Pelotense. Organizações que denunciam um Estado nacional que não pensa essa transição de trabalhadores escravizados a desempregados, pois, aqui, cabe salientar que, concomitantemente, no processo constituição de um capitalismo dependente, havia a fomentação das políticas de imigração que privilegiava o imigrante como o operário, o trabalhador nesse novo modo de produção. É importante frisar que, em meados do século XX, o pensamento social brasileiro estava permeado pelas teorias racialistas do Século XIX, que inferiorizavam não-brancos como raça inferiores, e mesmo com a declaração da UNESCO em 1950, de que existe somente uma raça humana, o racismo se diluiu nas mentes e estruturas sociais. O racismo se perpetua, aqui no Brasil pela cor, como nos coloca Oracy Nogueira. Ele se manifesta como uma marca, ou seja, pelas características fenotípicas e não pela ancestralidade, como ocorre nos EUA.

Assim, nesse pequeno contexto, podemos perceber as contradições de uma nação que constantemente nega a força de mais de 50% da população que tem a ensinar sua garra e forma de sobreviver e (Re) existir. Uma população que carrega a marca de um Estado que somente em 1988 torna o racismo crime, que somente em 2010 aprova um Estatuto da Igualdade Racial, que somente em 2012 aprova uma Lei de Cotas nas Instituição de Ensino Superior, a partir da pressão do Movimento Negro. E pela ironia dessa “igualitária nação”, esta política está sendo constantemente fraudada por brancos que disputam o pardo que sempre negro foi! Uma população que lidera as taxas de assassinatos entre os jovens negros, demonstrando a dura face desse Estado genocida. Corpos negros que lideram os presídios, as taxas de violência contra as mulheres negras, seja na saúde, seja na violência doméstica. Essa é a face da Negra Pelotas que ninguém quem lembrar, pois ela é mulher, é forte, manipula sua ligação com sua origem e matriz africana, articula seu existir numa estrutura que não aguenta seu constante e incansável resistir!

Viva Teresa de Bengela!

Viva Mariele Franco!

* Doutoranda do PPG Política Social e Direitos Humanos /UCPEL / Texto baseado em minha dissertação de Mestrado: Avila, Carla Silva de. A princesa batuqueira: etnografia sobre a interface entre o movimento negro e as religiões de matriz africana em Pelotas/RS – Pelotas, 2011.

Imagem: TripAdivisor

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