O país resignado

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Onde encontrar um povo tão conformado, embora tão humilhado e ofendido?

Os números são assombrosos, colocam o País, empatado com a Suazilândia, entre os dez mais desiguais em um mundo, diga-se, que não prima pela igualdade por obra e desgraça do advento do deus mercado.

Estamos diante de uma evidência dolorosa: o desequilíbrio social continua intocado a despeito dos louváveis esforços dos governos Lula e Dilma, no seu primeiro mandato. De fato, não adianta melhorar a vida dos pobres se os ricos, a minoria privilegiada, ficam cada vez mais ricos. E as razões são óbvias: nada se faz a bem de uma distribuição de renda digna, justa e salutar de todos os pontos de vista.

A calamidade aprofunda-se no momento em que a Justiça, a Administração e a Política estão nas mãos de quadrilhas predadoras, empenhadas em vender o País a preços de liquidação, sem deixar de garantir o quinhão dos super-ricos nativos.

A verdade factual soletra que Lula representou uma interrupção benfazeja na linha entreguista elevada à enésima potência por Fernando Henrique Cardoso, e retomada agora, com ímpeto renovado. Não se dá por acaso que o príncipe dos sociólogos seja também coautor de certa teoria da dependência.

Isso tudo envolve a casa-grande, está claro, e demonstra a medievalidade do Brasil, enquanto a Idade Média não subsiste em muitos outros recantos, da América Latina inclusive. Onde houve guerras de independência, levantes sangrentos, povos conscientes dos seus direitos e dispostos à luta para fazê-los valer.

Dizia Joaquim Nabuco, sábio aristocrata, não haver autêntica abolição da escravatura se não for extirpada de vez a cultura escravocrata. E esta abolição não aconteceu até hoje, como é da percepção até do mundo mineral.

Sem dificuldade alguma, constata quem estiver preparado para tanto que a casa-grande sabe como agir para manter de pé a senzala, abrigo sombrio da resignação. Da ignorância, do aturdimento, do medo. Nada é mais indicativo da nossa medievalidade.

Impossível esclarecer a respeito o cidadão europeu, e mesmo muitos americanos, asiáticos, africanos. Onde encontrar um povo igual, tão espezinhado, humilhado, vexado, e tão inerte diante de tamanho descalabro?

Sim, a pesquisa da Oxfam comprova a presença inexorável de casa-grande e senzala. Há algo mais, porém, no meu entendimento. Uma espécie de estado de espírito, a marca de uma maldição, o sentimento súcubo de quem se conforma e tão feroz quanto irresponsável de quem manda sem risco algum, graças a um poder conferido por direito divino.

Volto a um tema fascinante, ao menos na visão dos meus botões. O atraso do País resulta da ação da casa-grande, mas a falta de reação popular nasce da incompetência da esquerda brasileira, ou melhor, de quantos se disseram esquerdistas sem acreditar em suas palavras.

Sei da importância de partidos comunistas e social-democratas que em diversos países arcaram com o papel decisivo para o próprio progresso capitalista. Sublinho capitalista. E aproveito para recordar, em tempos de inquisição curitibana, que a operação Mani Pulite na Itália do começo dos anos 90 não conseguiu incriminar um único, escasso militante do PCI.

A esquerda nativa, sincera ou não, não conseguiu abrir os olhos do povo que haveria de ser seu. Lula chega lá, pessoalmente, como líder carismático, candidato imbatível de uma eleição da qual tudo se fará para alijá-lo.

Seu PT, cercado na fundação por muitas esperanças, esteve longe demais de cumprir o quanto prometia, e carece por completo do talento mobilizador do ex-presidente.

Aqui estamos, enjaulados no passado, e uma atroz conexão se estabelece entre a forma de pensar, de imaginar a vida e o mundo, e o nosso destino.

A resignação do povo é de verdade a da população em bloco, com a exceção dos donos da mansão senhorial. A jaula está na mente de todos como fatalidade inescapável. Temos uma história de golpes e falsas revoluções. Quem sabe ainda venha o dia de entendermos que a conciliação é a das chamadas elites (elites?) e que o Brasil somente mudará se for tomada a casa-grande.

Fonte: Mino Carta, Carta Capital

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