Fidel não é Deus (Deus não existe)

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Há quem diga que, para nós da esquerda, Fidel é Deus.

Há quem diga que, para nós da esquerda, Cuba é um paraíso.

E nós dizemos que nada disso é verdade. Fidel não é Deus porque Deus não existe; e Cuba não é um paraíso porque no paraíso não há guerra. Fidel não é Deus, mas sobreviveu a 637 atentados; Cuba não é um paraíso, mas tem o melhor sistema de educação e de saúde pública da América Latina e do Caribe, e um dos melhores do mundo. Tudo isso, no entanto, não foi de graça. “Não precisamos que o império nos dê nenhum presente”, disse Fidel após a visita de Obama à Cuba. De 1959 até hoje foram mais de 50 anos de bloqueio e de guerra. Guerra contra um império. Durante esses anos todos, Cuba sobreviveu a dez presidentes dos Estados Unidos. E isso não foi obra de Deus. Fidel não é Deus. Deus não existe. Poderia passar o resto dos meus anos escrevendo sobre os ataques dos Estados Unidos à Cuba e de como Fidel e os cubanos os enfrentaram e os derrotaram. Mas não é o caso. Não é hora e não há espaço. Não posso deixar de dizer, porém, que em Cuba os ianques não só organizaram bandos mercenários, como também introduziram armas, explosivos, treinaram homens, fizeram sabotagens, impulsionaram a contrarevolução por todos os meios, realizaram ataques piratas contra os portos, contra os barcos, durante anos organizaram expedições mercenárias e levaram a cabo invasões e bombardeios. Mas Fidel resistiu. E em meio ao fogo cruzado encontrou tempo ainda para mostrar ao mundo quem sabe sua faceta mais bonita: a solidariedade. O que teria sido de Angola sem os 50 mil cubanos que a defenderam contra os racistas da África do Sul a troco de nada? O que teria sido da Nicarágua sem os médicos, sem os professores e os técnicos que, a troco de nada, foram de Cuba para lá? Em quantos países os cubanos foram os primeiros a chegar, a troco de nada, na hora de enfrentar uma peste, um furacão ou um terremoto? pergunta Galeano. E o que seria do Mais Médicos, aqui no Brasil, não fosse o apoio dos médicos cubanos?, pergunto eu. A verdade é que todos nós devemos muito do que somos a Fidel. Fidel foi aquele que apontou o caminho e mostrou como se faz para chegar. E isto não é pouco. Pelo contrário, é muito. É muito, mas não é tudo. A revolução de Fidel não foi a revolução das liberdades. Quem sabe um dia façamos nós aquilo que Fidel não fez. Quem se habilita? No entanto, é bom lembrar: com um gigante a acossá-lo, Fidel fez o que podia fazer. E, se não fizesse como fez, não faria tudo que fez. Em Cuba não existe nenhum descalço, nenhum analfabeto, nenhum faminto. Cuba é hoje o que é, uma nação solidária, com o melhor sistema de saúde pública, com a melhor educação do continente, sem uma criança sequer dormindo na rua, porque Fidel foi o que foi – e Fidel foi o que tinha de ser. O homem é o homem e suas circunstâncias, diria Ortega y Gasset. Fidel não é Deus, Deus não existe. Fidel é Fidel: para os cubanos mel; para os ianques fel.

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